Misericórdia e Redenção nas Constituições da CSsR

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Estamos vivendo o Ano Santo da Misericórdia, proclamado pela belíssima bula Misericordiae Vultus. Neste texto, entre outras coisas se destaca a divindade e ao mesmo tempo a humanidade da misericórdia, que parte de Deus: ela é visceral, ou seja, parte do íntimo, do profundo de Deus e também do homem. A misericórdia não é abstrata e o Papa Francisco insiste nisso. A misericórdia é humana e por isso é divina, ou é divina por isso é humana? É o que encontramos em Jesus de Nazaré, no qual Deus se revela plenamente como sendo misericordioso e é exatamente sua misericórdia que confere redenção a toda humanidade.

A misericórdia é peça fundamental para a redenção e a redenção não se realiza sem a misericórdia. Segundo o Dicionário Enciclopédico da Bíblia o termo redenção advém da linguagem comercial, pois significa resgate, reaquisição e não tem a ver com quem ou o que é resgatado, mas com o preço a ser pago. No Novo Testamento o termo contém o mesmo significado: resgate por prisioneiro de guerra e também o preço que se pagava para comprar a liberdade de um escravo. Em Mc 10, 45 e Mt 20, 8 é usado para esclarecer o sentido da morte de Jesus e Santo Anselmo interpreta como um sacrifício que o próprio Deus faz do seu Filho em favor da humanidade que se encontra em pecado tão grave que só será perdoado mediante o sacrifício do próprio Deus.

No entanto, a exegese mais atual dá conta de que a redenção é libertação de toda servidão que impede o humano de ter acesso à plenitude da vida. Assim, se vê claramente que a experiência mais fundamental desde o Antigo Testamento é a de um Deus redentor e é no preço da luta pela libertação que se dá a redenção (Sl 130). Assim, não é a morte de Jesus em si mesma que gera a redenção, mas a sua luta pela libertação, sendo a sua morte a consequência da ação redentora. Redenção é, portanto doação a um projeto de libertação. E entregar-se a um projeto de libertação é se colocar no lugar do outro, é “ver e sentir” o que o outro padece e isso só pode acontecer mediante um sentimento visceral, a misericórdia.

Na Sagrada Escritura a misericórdia é testemunhada por pessoas e situações profundamente visceral e se realiza mediante a saída superficial do egoísmo e indo às profundezas de todo o ser. Tão profundo que Isaias compara ao amor da mãe pelo filho (Is 49, 15). Em Ex 3, 7-8, Deus conhece, vê, sente o que o povo sente e o sentimento de Deus é visceral, por isso liberta, confere redenção. Em Oseias 2, 21-22 Deus entende e conhece o seu povo, por isso se coloca ao seu lado e não sente medo de desposar aquele povo adúltero, ao contrário, desposa Israel em amor (hesed), ou seja, Deus age para redimir Israel da opressão da idolatria. A ação de Deus é redenção e é assim que o homem conhece a Deus.

Em Lucas, o evangelista da misericórdia, mostra como a redenção se realiza por meio da misericórdia. Nas parábolas do Bom samaritano (Lc 10, 29-37) e a do filho pródigo (Lc 15, 11-32) o que faz acontecer nos dois casos a cura do ferido, ou a redenção do filho, é exatamente o movimento de entrega e saída de si, tanto do samaritano, quanto do pai: “viu-o, encheu-se de compaixão…” (Lc 10, 33 e 15, 20). No Magnificat, Maria proclama a misericórdia de Deus porque Deus se mostrou poderoso e santo a ponto de se tornar conhecido pelas gerações exatamente por usar de misericórdia – “É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua onipotência” (Santo Tomás, citado pelo papa Francisco n. 6). A experiência que Maria faz da misericórdia de Deus a faz deslumbrar a redenção, que se dá através da libertação dos oprimidos (Lc 1, 51-55).

Nas Constituições redentoristas, logo no número 1 já nos é apresentado a finalidade da Congregação: “CONTINUAR o exemplo de Jesus Cristo Salvador”, isto é, continuar o testemunho da misericórdia redentora de Jesus (C. 8, 9, 10). No número 4 diz que como Jesus, os missionários redentoristas se identificam com os mais pobres, fracos e oprimidos e como sabemos se identificar com o que sofre tem sua origem na misericórdia, pois o identificar não é o mesmo que sentir pena, mas “ver e sentir” e lutar pela “libertação e a salvação da pessoa humana toda” (C. 5).

Os números 7 e 8  são profundamente antropológicos, pois parte do homem em sua circunstância para fazer revelar Deus, que já está presente. Portanto, antes de qualquer ação missionária, os missionários redentoristas devem estar cientes de que não estão indo como super-heróis salvar os ‘pecadores’, antes vão “ao encontro do Senhor onde Ele já está presente e atua com seu modo misterioso” (C. 7), isto é, os redentoristas devem acima de tudo fazer brilhar a misericórdia de Deus (C. 11, 19), pois é assim que Deus age de forma misteriosa. É, pois a partir da conscientização de que Deus é misericordioso é que se pode dizer que Deus é amor, que na espiritualidade redentorista se traduz em “Copiosa Apud Eum Redemptio”.

Ir. Isael Rodrigues Pimentel,

Missionário Redentorista  

 

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