“Não me permito ter medo do demônio!”, diz padre Vanilson

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Em entrevista à revista Bote Fé, publicada pela CNBB e distribuída a todas as paróquias do Brasil, o missionário redentorista, padre Vanilson Silva, afirmou que não tem medo do demônio. O confrade, que é vigário-paroquial da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, do Lago Sul em Brasília (DF), também é o fundador da Associação Padre Júlio Negrizzolo, que é tem a missão de realizar a evangelização e restauração de pessoas que estão na drogadição e famílias.

A prática do rito do exorcismo na Igreja no Brasil é uma questão delicada e deve ser tratada com muita cautela. Segundo o Catecismo da Igreja Católica, o exorcismo é um ritual que “protege e afugenta o demônio de uma pessoa ou objeto”. Padre Vanilson da Silva exerce este ministério com a permissão do Governo Provincial e da Arquidiocese de Brasília.

Natural da Ilha do Marajó, no Pará, onde Vanilson iniciou seus estudos. Hoje na capital federal, continua a seara espiritual de outro confrade também exorcista oficial, padre Júlio Negrizollo.

Abaixo, da entrevista publicada na íntegra na revista Bote Fé:

Reportagem: O senhor não tem medo do demônio?

Padre Vanilson: Jesus faz várias recomendações: “Não tenhais medo”! O medo condiciona e impede a Graça de Deus de acontecer na vida de uma pessoa. Observando essa recomendação, não me permito ter medo. Claro que, em certas circunstâncias, em alguns atendimentos realizados, brotam sensações desagradáveis. Logo, penso que quem está no comando é Jesus Cristo e eu sou apenas um instrumento. Ele, Jesus, não deixará nada me acontecer de mau. Assim diz o Salmo: “Caiam mil a tua esquerda e dez mil a tua direita, tu não serás atingido”. A certeza que quem está agindo nesse momento é o próprio Jesus dissipa qualquer sensação negativa.

Não, não tenho medo do demônio. E minha vida e ministério não estão focados nisso. Como ensina a Igreja, minha prioridade é pregar o Evangelho, a Boa-Nova de Jesus Cristo. Às vezes, confesso, até me aborrece o fato de que me procurem sempre para tratar desse tema. No entanto, sei que se trata de um serviço importante. Procuro fazer o meu melhor e observar, com rigor, o que a Igreja, a CNBB, a literatura nesse campo podem me ensinar para realizar essa missão que me foi confiada pelo arcebispo de Brasília, Cardeal Sergio da Rocha.

Identifico-me com uma citação que dom Pedro Carlos Cipollini faz na apresentação do último Documento da Conferência sobre o Exorcismo quando lembra uma expressão de São João Crisóstomo: “não nos dá prazer falar sobre o diabo, mas a doutrina da qual isto me oferece a ocasião de expor será útil para vós”. Fico firme nesse propósito: falo do demônio somente enquanto isso significar algum caminho de libertação para todos os membros de nossas comunidades que querem seguir a Jesus, nosso único Senhor.

Há muita superstição no meio desses casos em que se pensa se tratar de possessão?

Sim. Muita superstição, coisa que a Igreja não alimenta e combate. Na verdade, como nos diz o Documento de orientações da CNBB sobre o Exorcismo, há um fascínio garantido pelo sentimento de medo, perplexidade e terror que instigam a fantasia humana. E é preciso ficar muito atento às manifestações mais perturbadoras se nelas não estão presentes apenas elementos de fantasia. Isso pode acontecer muitas vezes e a Igreja mantém sua atenção na ação evangelizadora e não se pode dobrar à pressão dessas fantasias. O importante é conservar a paz interior e enfrentar o desafio pastoral de atender essas pessoas com carinho. Há muitos problemas que são casos psiquiátricos, desordem de natureza psicológica e influência de pensamentos mágicos. Tudo isso requer da nossa parte constante discernimento.

A grande maioria das opressões é de ordem afetiva. O esfacelamento das famílias gera pessoas feridas e doentes. A carência afetiva virou uma epidemia. A falta de calor humano tem causado muitos distúrbios. Vazios, perda de sentido existencial e angústia têm sido chagas necrosadas no coração humano. Logo, o povo lê tudo na ótica do espiritual. Daí esse ministério acaba sendo uma esperança de saída. Como existe um déficit catequético, tudo é espiritual e do demônio.

Que roupa o diabo veste?

Não presto muita atenção nessa particularidade. A Bíblia nos apresenta vários nomes dele e talvez se possa dizer que cada expressão: “satã”, “satanás” e “diabo”, mais tarde traduzidos por “demônio” são suas vestes. Uma coisa, no entanto, é uma garantia bíblica: o demônio nunca é um inimigo igualmente poderoso que disputa com Deus o coração das pessoas. Trata-se de um erro grotesco imaginar que as pessoas são disputadas por dois deuses, um do bem e o outro do mal. Só há um Deus, único e verdadeiro. O Deus de Jesus Cristo: a Trindade Santíssima. O Pai, o Filho e o Espírito Santo.

As reflexões teológicas e orientações pastorais vindas da CNBB têm me ajudado muito nesse ministério que é sofrido e exigente. Gosto do esclarecimento presente no Documento da CNBB e me comprometo a repassar como uma ideia clara de quem é o diabo. A partir da revelação da Bíblia, o “diabo é aquele que quer dividir a relação existente entre o Criador e os seres humanos”. E mais: “O diabo continua a ser o tentador da humanidade, aquele que tira a Palavra do coração humano e impede o entendimento do discípulo”.

Qualquer que seja a roupa que o diabo veste, ele deve ser combatido pela fé e pelo caminho da cruz. Ele está do lado contrário. Ele não quer que nos curvemos à obediência a Jesus Cristo.

Nas minhas catequeses sempre ensino: o diabo não é de chifre e rabo. E muito menos bobo para estar em qualquer situação da vida. O demônio é inteligente e estrategista. Enquanto pessoas têm a mania de vê-lo em tudo, ele, de fato, está agindo nas estruturas bases para gerar e instalar o caos geral. A roupa do diabo é ilusória: faz as pessoas vê-lo onde não está e não vê-lo onde de fato está.

Das indicações pastorais oferecidas pela CNBB, quais delas o senhor destacaria mediante sua experiência como exorcista?

Esse documento é uma preciosidade e não apenas para quem é exorcista, mas para todos os cristãos que se veem atingidos por conversas a respeito do mal e do demônio. Eu recomendo a todos que façam uma leitura desse material. A partir da experiência que eu faço, das pessoas que atendo, creio que todas as orientações contidas no Documento são importantes, mas eu destacaria três delas: exortação para reconhecer a força dos sacramentos e da oração para se libertar das forças do maligno; não abandonar as pessoas que se sentem atormentadas pelo mal, mesmo que não seja de ordem espiritual e sábia orientação para se superar a pregação que acentua mais o medo do demônio do que a alegria de acolher a graça que Cristo oferece.

Eu procuro, em minha prática de vida e no ministério que exerço, colocar em primeiro lugar a oração e a celebração dos sacramentos. Minha luta cotidiana não é contra o demônio, mas a favor do amor de Deus que se derrama em misericórdia sobre seus filhos e filhas em todos os lugares do mundo. No meu quarto de dormir, reservo com simplicidade um lugar que me favoreça a constante oração pelas mais variadas intenções. A devoção a Nossa Senhora da Rosa Mística me ensinou isso com muita clareza: as mãos juntas e o terço da imagem que veneramos são um sinal claro do convite permanente à oração e, especialmente, à oração do terço. E, pelos sacramentos, recebemos a vida nova que só Cristo pode dar. Eu procuro dar prioridade a essas dimensões da vida e com a força que adquiro na oração e nos sacramentos é que me sinto em condições para enfrentar o desafio de atender pessoas que precisam de exorcismo.

A indicação do Documento para que não abandonemos as pessoas que se sentem atormentadas pelo mal é de grande importância na pastoral de nossas comunidades. Não adianta deixar para lá fazendo algum diagnóstico inadequado considerando essas pessoas como loucas ou desequilibradas. Com um atendimento bondoso, como pede o Evangelho, ouvindo o que essas pessoas têm a dizer e enxugando suas lágrimas, poderemos também incentivá-las a buscar tratamento psicológico no sentido de curar ou atenuar seu sofrimento mental. O que não se pode é deixar essas pessoas caídas na beira do caminho, passando para o outro lado da estrada.

E, por fim, uma última indicação que destaco é de que não podemos insistir em uma pregação para incutir medo nas pessoas e nas comunidades. O demônio existe e tem poder, mas o poder de Deus é infinitamente maior e é sempre o vencedor. Precisamos mostrar, em nossas pregações, mais a graça que ampara e salva do que o adversário que confunde e nos tenta.

O senhor já foi a Roma algumas vezes para aprofundar sua formação sobre o Exorcismo, o que esse tipo de estudo trouxe de ajuda para o seu trabalho?

Tive a possibilidade de participar de dois cursos. Foram ocasiões de grande importância para a minha vida, sobretudo porque pude ver o modo como a Igreja enfrenta o desafio desse ministério em vários lugares do mundo. Depois, a clareza com que os professores apresentam seus conteúdos me foram de grande proveito. Posso dizer que, particularmente, esses estudos me ajudaram a perceber que existe uma série de doenças psicológicas que podem se manifestar nas pessoas dando a elas a impressão de se tratar de alguma aproximação com o mal. Nesses casos, não podemos intervir com competência e precisamos indicar tratamentos psiquiátricos.

Todas essas indicações são acolhidas pela Igreja no Brasil, especialmente para padres, como eu, que recebem de seus bispos a missão de realizar exorcismos. Lá de Roma continuam a chegar luzes para esse assunto. Lembro de uma palavra colocada no Documento da CNBB sobre o Exorcismo e que nos aponta para uma sábia lição do Papa Francisco ao se referir à ação do demônio no mundo de hoje: a certeza de que Jesus luta contra o diabo, a constatação de que quem está com Jesus está contra ele e a necessidade de vigilância.

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