O amor nos faz recordar uma pessoa falecida

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O ser humano lida constantemente com a realidade da morte. Ora através dos meios de comunicações, ora por meio da própria experiência, quando tal dimensão ocorre em nossas famílias. O filósofo dinamarquês, Soren Kierkegaard (1813-1855), tem um escrito que nos ajuda a “lidar” com o fato da morte.  “As Obras do Amor – Algumas considerações cristãs em forma de discursos”. Na obra, há um capítulo que trata exclusivamente sobre a morte. A meu ver, nos orienta perante esse tema: “A obra do amor que consiste em recordar uma pessoa falecida”.

Assim escreve: “a morte é o resumo mais curto da vida, ou a vida reconduzida à sua forma mais breve”. Significa que a morte nos ajuda a recapitular a vida. A morte do outro deve também nos afetar. Pois, com a morte do outro, descobrimos que esse outro é nosso “parente no pó”. Em outras palavras, “os ‘parentes no pó’, toda diferença se apaga e só resta o parentesco próximo. Pois todos os homens são parentes consanguíneos e, portanto, de um único sangue, e este parentesco da vida é tão frequentemente negada na vida; mas que todos são de um mesmo pó, esse parentesco na morte, isso não se deixa negar”.

Kierkegaard procura exprimir como deve ser lá no céu: “o sol consegue brilhar igualmente sobre todos, nenhum monumento se eleva tão alto que roube do que mora ao lado ou do que mora à frente o raio do sol ou a chuva refrescante ou o frescor da brisa ou o eco do canto dos pássaros. Não, aqui a repartição é igualitária”.

Geralmente, temos dificuldades em acolher a morte de quem amamos. Somos sensíveis e afetuosos com nossos entes. Daí, o motivo da dor em nosso coração. “A morte é tão amorosa! Pois é justamente caridade, da parte da morte, que ela, por meio dessa pequena diferença em gracejo sublime, relembre a grande diferença. A morte não diz: ‘Não há nenhuma diferença’; ela diz: ‘Aqui podes ver o que era esta diferença: uma meia vara’. Caso não houvesse essa pequena diferença, então a quintessência da morte não seria inteiramente confiável. Assim a vida retorna, na morte, à infantilidade”.

Na reflexão do filósofo dinamarquês, não há separação entre amor e morte. Aliás, a morte emerge como “termômetro”, para cada um de nós “medir” o quanto amamos em vida. “Na verdade, se quiseres ter certeza sobre o amor que existe em ti ou em outra pessoa, então presta atenção para a forma com que ela se comporta para com um falecido”. Então, a morte do Outro me diz respeito. Esse outro, não pode ser concebido como “ninguém”. Ao contrário, trata-se de “alguém”. Mesmo se não o conheço. Somos “ligados” pelo “parentesco do pó” em nossa realidade e fragilidade humana. “Um morto não é um objeto real; ele é tão-somente a ocasião que constantemente revela o que reside no interior do vivente com ele se relaciona, ou que ajuda a tornar manifesto como é aquele vivente que não mantém com ele nenhuma relação”.

Ou ainda, “pois nós certamente temos deveres também para com os mortos. Se devemos amar as pessoas que vemos então também aqueles que vimos, mas não vemos mais porque a morte os levou embora”. Segundo o filósofo, devemos tratar o falecido “como tratamos alguém adormecido a quem não ousamos acordar, porque esperamos que venha a despertar por si mesmo”.

Nesse contexto, o amor emerge como experiência sem nenhum interesse. “Se quisermos garantir que o amor é completamente desinteressado, podemos então afastar toda possibilidade de retribuição”. Porém, a morte deixa transparecer a dor da separação: “no momento da separação, quando sentimos a falta da pessoa que morreu, nós gritamos. Será esse então o amor livre tão comentado, será isso amor pelo falecido? E depois, pouco a pouco, à medida que o morto se reduz a pó, assim também a recordação se esparrama por entre os dedos, não se sabe mais o que é feito dela, pouco a pouco nos libertamos dessa… pesada recordação”.

E para concluir, pensemos nessas palavras de Kierkegaard: “Então, entre as obras do amor, não esqueçamos desta, não esqueçamos de considerar: a obra do amor que consiste em recordar uma pessoa falecida”.

 

 

Pe. Elismar Alves dos Santos, CSsR, tem graduação em Filosofia, Teologia e Psicologia. Mestrado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Doutorado em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutorado em Teologia, na área de Teologia Moral, na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte-MG, com estágio na Universidad Pontificia Comillas, Madrid, Espanha. Professor de Psicologia e Teologia na Faculdade de Filosofia e Teologia de Goiás (IFITEG), em Goiânia-GO.

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