PARADOXOS DA POLÍTICA … E DA MÍDIA

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Nunquam est fidelis cum potente societas

A aliança com o poderoso nunca é leal (Fedro, Fábulas)

Muitos de meus amigos(as), sabendo que pesquiso a relação da mídia com a política, pediram uma opinião sobre a notícia de possíveis alianças partidárias, especificamente aquela entre Ana Amélia (PP) e a Manuela D’Ávila (PC do B). Detenho-me nesse caso, dos inúmeros que poderiam ser analisados, por dar ocasião para pensar não somente a pretensa tentativa de aliança, como a história, profundamente ligada à mídia, de uma das candidatas em questão.

É nesse sentido que arrisco alguns comentários, absolutamente pessoais. A primeira figura que me vem à cabeça, olhando notícias desse tipo, é a de uma ave de rapina, um gavião feroz, próximo a agarrar e depenar uma pobre pombinha. Desculpem-me a comparação, é uma figura clássica que me parece tão pertinente! De um lado, alguém muito experimentado, sempre ligado a poderosos grupos rurais (considerada a porta-voz dos grandes fazendeiros e latifundiários), construção fictícia de determinado conglomerado midiático, com características monopolistas e oligopolistas, que a fez amplamente conhecida no cenário político e com isso responsável pelo seu içamento à posição de alto destaque em que se encontra.

Tal grupo midiático, concessionário de serviços públicos, conseguiu açambarcar a maioria destes, até mesmo meios que se denominam “comunitários”, regidos, contudo, por estritas leis capitalistas de mercado. Estamos concluindo, presentemente, uma larga pesquisa que entrevistou senadores e ex-senadores, deputados e ex-deputados federais e estaduais, vereadores etc., sobre a relação entre mídia e política. Tal estudo identificou artimanhas surpreendentes que, amparadas por um silenciamento planejado e pelo receio dos políticos de um possível linchamento midiático, nunca conseguem vir a público.

De fato, quem se arrisca a questionar tais meios é relegado a um ostracismo doloroso e termina deixando de existir, política e socialmente falando. O que a investigação evidencia, sem causar surpresa, é a existência de tal relação simbiótica entre mídia e política onde, na maioria das vezes, a primeira dita, descaradamente, as normas à segunda. Isso só se explica se lembrarmos que o principal e indispensável elemento necessário ao político é o “capital simbólico”, de modo especial a credibilidade e o prestígio. E o capital simbólico é fundamentalmente construído e mantido, como também arruinado, precisamente pela mídia. Exemplo claro desse tipo de destruição é o que acontece quando do escândalo político, tema que J.B.Thompson (Vozes, 2004) analisou de maneira exemplar. Sua conclusão é de que todo o escândalo político que chega a proliferar é, unicamente, o difundido e sustentado pela mídia: se não houver interesse da mídia, se ela não o promover, o escândalo acaba não se instalando e termina desaparecendo, suprimido do cenário social como resultado de uma “agenda negativa”.

É importante lembrar esse fato pois, em todas as entrevistas da então candidata do PP, ao vir à baila sua relação com a mídia, era prontamente negado que seu trabalho em um grande conglomerado de comunicação, que a fez figurar por décadas na TV e no rádio, tivesse alguma relação com seu desempenho percentual nas pesquisas de opinião. Penso se tal negativa seria, de fato, apenas devido à ingenuidade da candidata. Pois é essa “experiente águia” que se aproxima agora da encantadora menina que desponta com percentuais surpreendentes nas pesquisas. Confirmando-se que a iniciativa tenha partido da nobre senadora, fica clara uma voracidade inacreditável, capaz de passar por cima de quaisquer princípios doutrinários ou valores partidários, ao menos os apregoados; mas principalmente, menosprezando a tradição e a história de correntes completamente opostas: uma, umbilicalmente ligada à ditadura, essa mesma ditadura que matou, torturou, fez desaparecer tantos lutadores e defensores da democracia pertencentes, paradoxalmente, a essa outra, defensora de valores claramente opostos a tal rapinagem.

Imagino, por exemplo, quais serão as respostas dos representantes da dita “aliança” quando levantados temas como Reforma Agrária, problemas no campo, trabalho escravo, assassinato de camponeses, ou mesmo, sobre questões referentes à regulamentação do Capítulo V da Constituição, especialmente o parágrafo 5º do Artigo 220 que reza: “os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio”. Seria possível imaginar razões legitimadoras para acordos e alianças sobre semelhantes temas por parte dos partidos envolvidos? Permitam-me, ainda, mais um comentário sobre esse “fenômeno” que se está anunciando. Como educador e interessado na questão da justiça e da ética, pergunto pelos motivos que levariam a se chegar a aventar uma aliança como essa. Podemos citar a fragmentação e liquidez de todas as narrativas, valores e princípios na contemporaneidade; a força avassaladora das mensagens que não deixam tempo para as pessoas bombardeadas refletirem sobre o que veem, etc. Poderia, ainda, ajudar a compreender o fenômeno em discussão, ao menos em parte, um olhar atento para a maneira como a mídia insiste em se apresentar atualmente.

De fato, a comunicação ocupa todos os espaços e penetra em todos os interstícios da vida, quase como o ar que respiramos, como a água para o peixe. Nas suas inúmeras formas de apresentação, pictórica, sonora, escrita, digital e analógica, interpessoal e de massa, ela passa a constituir o ambiente em que se forma o ser humano contemporâneo. Diante disso, não vejo como seria possível dar conta das inúmeras questões e perguntas que nos faz a esfinge atual, sem um espaço de reflexão e discussão propiciado, tão somente, pela educação. E agora vejam o paradoxo: o capítulo 221 da Constituição, quando fala dos princípios que devem orientar a comunicação, cita como o primeiro, que ela deve dar “preferência a finalidades educativas…”.

A questão fica ainda mais séria quando sabemos que educação não significa “dar respostas”, mas sim “fazer perguntas”, algo, para dizer o mínimo, diametralmente oposto ao tipo de educação proposto pela mídia. Para deixar isso mais claro, vejamos o seguinte exemplo: enquanto em noticiários de emissoras como a BBC (rádio e TV), considerada das melhores em comunicação no mundo, uma notícia demora vários minutos para ser transmitida, são questionados os diferentes aspectos, pesadas as diversas fontes e razões e, principalmente, é apresentada sem que o apresentador tome posição, deixando ao telespectador ou ouvinte o julgamento e a formação da opinião; aqui, nossos âncoras e comentaristas se apresentam em telejornais e programas de rádio como deuses(as) do Olimpo, oniscientes, donos absolutos da verdade, a dizer como as coisas são ou não, o que é ou não verdade, o que pode ou não ser aceito.

Examinemos, por exemplo, apenas os cenários das TVs de onde esses verdadeiros oráculos proferem seus julgamentos… não se assemelham mais a santuários sagrados dignos do panteão olímpico? Essas são algumas ponderações que me vem à mente quando me perguntam sobre fenômenos tão surpreendentes como esse da aliança que vem surgindo em nossos cenários midiáticos e políticos. No entanto, é preciso lembrar continuamente que tudo é possível quando as perguntas deixam de ser feitas e apenas alguns dão as respostas.

Sic totam praedam sola improbitas abstulit.

Assim, a desonestidade levou, sozinha, toda a presa (Fedro, Fábulas)

Pedrinho A. Guareschi – UFRGS

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