Quem era, de fato, Maria Madalena? Ela foi ou não prostituta? Muitas lendas cercaram a tradição sobre Madalena ao longo da história do cristianismo. Uma delas conta que ela era esposa de um soldado romano, mulher rica, herdeira de uma grande fortuna, dona de um castelo em Magdala, cidade que está sendo escavada atualmente. Ao encontrar-se com Jesus, em Magdala, ela abandonou tudo e o seguiu.
Na tradição da Igreja, Madalena recebeu muitos adjetivos: adúltera, santa e pecadora, penitente, bela e formosa. No entanto, o que mais marcou foi o equívoco cometido pelo papa Gregório Magno, no ano 591, na catedral de Milão, interpretando Lc 7,36-50, que fala de uma prostituta que unge os pés de Jesus, ter afirmado que tal prostituta seria Madalena arrependida. Na sua homilia 33, ele diz: “Aquela a quem o evangelista Lucas chama de mulher pecadora é a Maria Madalena da qual são expulsos os sete demônios, e o que significam esses sete demônios senão todos os vícios?” Os milaneses pervertidos se converteram e a apóstola Madalena passou a ser aquilo que nunca foi: prostituta. A partir daí, o inconsciente coletivo guardou na memória a figura de Maria Madalena como mito de pecadora redimida.
A Igreja, em 1050, fez de Madalena padroeira de uma abadia de monjas beneditinas. A ideia seria mostrar que Maria Madalena se arrependeu e tornou-se eremita. Na França, ela é tida como padroeira dos perfumistas e cabeleireiros. Ela é também considerada padroeira das prostitutas.
A ligação de Maria Madalena com a França ocorreu porque, no tratado hagiográfico Legenda Áurea, publicado em 1293, o frade dominicano Jacopo de Varazze (1230–1298) conta que, 14 anos depois da morte de Jesus, Madalena e um grupo de cristãos acabaram expulsos da Judeia. Embarcados à força, foram atracar no porto de Marselha, no sul da França. Lá, Maria Madalena teria pregado e convertido muitas pessoas. Mais tarde, ela se retirou na gruta de Sainte-Baume, onde terminaria se dedicando por 30 anos à penitência e à contemplação. O local é venerado ainda hoje por cristãos no Santuário de Maria Madalena.
Em 1969, os predicados “penitente” e “pecadora” foram excluídos da seção dedicada a ela no Breviário Romano. Com isso, a Igreja reconheceu que Madalena não era prostituta. Madalena é celebrada pela Igreja Católica no dia 22 de julho, com festa litúrgica, a pedido do Papa Francisco, que, em 2016, a declarou “apóstola dos apóstolos”. Esse título foi dado a ela pelo teólogo Hipólito de Roma (178–236) e retomado por Santo Tomás de Aquino (1274). Para o Papa Francisco, esse reconhecimento demonstra a relevância desta mulher que mostrou um grande amor por Cristo.
O certo é que, para além de todas essas tradições, Maria Madalena era uma mulher de grande proeminência no início do cristianismo. Ela foi apresentada como prostituta para desmerecer o seu papel no seguimento de Jesus. Por ele, ela teve grande amor, não importa como tenha sido. O que vale para nós, hoje, é retirar dela essa alcunha, não desmerecendo as prostitutas, mas superando a carga negativa que essa simbologia carrega numa sociedade machista e misógina, ontem e hoje.
Maria Madalena: a partir de Jo 20,1-18 e sua releitura de Ct 3,1-6
Em Jo 20,1-18, Maria Madalena vai ao sepulcro e o encontra vazio. Do lado de fora, no jardim, ela chora. Olha para dentro do túmulo e vê dois anjos. Conversa com eles e com Jesus, o qual, num primeiro momento, não reconhece. Jesus a chama pelo nome, Maria. Ela o reconhece. Quer tocá-lo, mas Jesus a impede e lhe ordena ir anunciar aos discípulos que Ele voltaria para Deus. Maria Madalena sai correndo para dizer: “Vi o Senhor”. Um pouco antes, o evangelho de João já havia dito que ela estava aos pés da cruz com as outras Marias (Jo 19,25).
Nesses textos da comunidade joanina encontramos uma rica simbologia que ilumina a trajetória e o encontro de Maria consigo mesma e com Deus. Um jardim e um túmulo estarão sempre em seu caminho. Os símbolos são: cruz, caminho, noite, túmulo, pedra, discípulos, jardim, aroma, flores, choro, anjos, fala de Maria, fala de Jesus, toque e retorno.
Uma leitura de Ct 3,1-5 pode nos levar a concluir que a comunidade de João se inspirou no Cântico dos Cânticos para compor Jo 20,1-18. Tanto em João como em Cânticos, a mulher sai à procura do seu amado.
“Em meu leito, pela noite, procurei o amado da minha alma. Procurei-o e não o encontrei! Vou levantar-me, vou rondar pela cidade, pelas ruas, pelas praças, procurando o amado da minha alma… Procurei-o e não o encontrei!… Encontraram-me os guardas que rondavam a cidade: ‘Vistes o amado da minha alma?’ Passando por eles, contudo, encontrei o amado da minha alma. Agarrei-o e não vou soltá-lo, até levá-lo à casa de minha mãe, ao quarto daquela que me gerou…”
Nesse poema encontramos símbolos que expressam o amor profundo entre dois amantes. A interpretação segue uma linha poética:
a) Cruz: simboliza a morte violenta. Maria contempla o amado morto, mas não se detém ali; ela sai em busca da vida.
b) Leito e cruz: lugares de entrega total no amor.
c) Caminho: é o movimento de quem não aceita que a morte seja o fim.
d) Noite: representa o vazio e a ausência do amado.
e) Anjos e guardas: expressam o diálogo com o vazio e a busca contínua.
f) Túmulo: é o silêncio e o vazio existencial.
g) Jardim e praça: lugares de busca e reencontro do amor.
h) Flores: simbolizam saudade, gratidão e memória viva.
i) Saudade: dor profunda que se transforma em presença interior.
j) Toque e abraço: desejo de permanecer com o amado para sempre.
k) Retorno à casa: origem do amor em Deus.
l) Adeus: não é fim, mas permanência no amor eterno.
No adeus, manifesta-se a ressurreição: Maria Madalena anuncia aos apóstolos que Jesus vive. Pedro recebe dela esse anúncio.
Madalena é a apóstola de Jesus, líder entre os apóstolos, testemunha da ressurreição. Mulher à frente de seu tempo. Não foi prostituta, mas uma das primeiras grandes lideranças do cristianismo.
Urge resgatar o seu papel na construção da fé, como inspiração para mulheres e homens que acreditam na igualdade e na dignidade dentro da Igreja e da sociedade. Santa Maria Madalena, rogai por nós!
Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
Franciscano e doutor em Teologia Bíblica



