Na terça-feira que antecede o Tríduo Pascal, os cristãos são convidados a refletir sobre a atitude dos apóstolos diante do mistério de salvação anunciado por Jesus. A Palavra de Deus nos questiona a respeito de nosso comportamento como discípulos do Senhor, o Servo de Yahweh (cf. Is 49,3). Somos capazes de permanecer fiéis à nossa fé ou nos tornamos traidores (lat. tradere: “entregar”)?
Através de seu exemplo, Jesus nos ensina a buscar constantemente fazer a vontade do Pai (cf. Mt 7,21). Em sua carta aos Romanos, São Paulo expressa o conflito existente entre a natureza humana decaída, seduzida pelo pecado, e a busca por uma vivência cristã mais coerente, que anseia fazer o bem (cf. Rm 7,14-21). Esse constante antagonismo percebemos em muitas situações cotidianas, quando somos dominados pelo medo ou pelas incertezas, que nos afastam do projeto salvífico de Deus, enquanto, em determinados momentos, temos a coragem de superar nossas fraquezas e vencer as tentações.
A Liturgia da Palavra inicia nos apresentando a imagem do Servo obediente, aquele que foi escolhido para ser a luz das nações. Jesus é o Servo por excelência, o Filho de Deus, o Salvador enviado para que a “salvação chegue até os confins da terra” (cf. Is 49,6).
No Evangelho, durante a Última Ceia, Jesus faz uma incômoda revelação: “Em verdade, em verdade vos digo, um de vós me entregará” (Jo 13,21). Jesus se referia à iminente traição de Judas Iscariotes, um dos Doze. Em suas meditações, Santo Afonso, ressaltando a misericórdia de Deus, nos diz:
“Consideremos também a bondade de Jesus Cristo que, embora ciente da traição de Judas, ao vê-lo não o expulsa, não o olha com malevolência, mas permite que ele permaneça com Ele e se sente à sua mesa, onde o adverte sobre sua traição para que se arrependa; e, vendo-o obstinado, chega ao ponto de se prostrar diante dele e lavar-lhe os pés, para amolecê-lo.” [tradução: S. Alfonso M. de Liguori, Meditazioni per i laici e persone consacrate, vol. I, Vaticano: Ed. Vaticana, 2003, p. 202].
O Evangelho nos relata que, após receber o pedaço de pão das mãos do Senhor, “Satanás entrou em Judas” e ele “saiu imediatamente” (cf. Jo 13,27-30). O coração de Judas não estava preparado para acolher a graça de Deus, sendo conduzido para longe por suas más inspirações. Sair da presença de Jesus significa afastar-se da luz, rejeitar a salvação, ser absorvido pelas trevas.
Judas não mostra sinais de arrependimento, mas de remorso e desespero, que o levam a tirar a própria vida. Ele jamais acolheu o Verbo de Deus, nunca se deixou guiar pelo Mestre. Quando a vaidade e o orgulho humano nos arrastam para o pecado, quando somos seduzidos por nossas tentações, muitas vezes nos tornamos incapazes do arrependimento verdadeiro, que nos faz buscar o perdão através do sacramento da reconciliação.
Assim como Judas, nem sempre somos capazes de enfrentar as consequências de nossas próprias escolhas e não permitimos a ação do Espírito Santo em nossa vida. A graça sacramental cura as feridas causadas por nossos pecados e nos faz voltar à comunhão com Deus e com os irmãos.
Diferentemente de Judas, Pedro sentia profundo amor pelo Senhor: “Eu darei a minha vida por ti!” (Jo 13,37). Mas ele ainda não estava preparado para tão grande testemunho. Muitas vezes somos dominados pela empolgação, e nosso excesso de confiança não nos permite agir de forma coerente e humilde. Pecamos pelo excesso de autoestima, mas nos falta coragem de agir quando necessário.
Então Jesus revela sua fraqueza: “Darás a tua vida por mim? Em verdade, em verdade te digo: o galo não cantará antes que me tenhas negado três vezes” (Jo 13,38). Pedro traiu Jesus por não conseguir testemunhá-lo diante do medo e da incerteza. Quantas vezes somos dominados pelo medo e pela insegurança?
O choro de Pedro foi um sinal de arrependimento verdadeiro, fruto de um coração que ama e é amado. Não se isolou, não se desesperou. Após a Ressurreição, Jesus o acolheu e revelou a sua missão: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-24).
A escolha de Pedro, o humilde pescador restaurado pela graça e pelo amor de Deus, é a prova concreta de que o perdão divino é possível para todos os que se arrependem verdadeiramente. Conduzido pelo Espírito Santo, Pedro será capaz de guiar a nascente comunidade cristã e testemunhar sua fé, sendo martirizado em Roma por volta de 64–67 d.C.
Pe. Wagner Gonçalves, CSsR
Roma – Itália



