Povíncia Redentorista de Brasília

O que significa dizer que Jesus não veio abolir a Lei e os Profetas? Sacrifícios e Eucaristia devocional

O texto sobre o qual vamos refletir hoje é Mt 5,17-19. Trata-se da afirmativa de Jesus de que Ele não veio abolir a Lei e os Profetas. Para entender essa afirmativa, é importante compreender que Jesus estava se referindo ao Primeiro (Antigo) Testamento. De que modo Jesus não aboliu a Lei e os Profetas? Como a Igreja voltou ao tempo do Primeiro Testamento em relação à Eucaristia?

No tempo de Jesus, até surgir João Batista, havia um consenso de que Deus já não falava mais com o seu povo escolhido desde o tempo do último profeta, Malaquias, que atuou por volta do ano 425 a.E.C.. O livro do profeta Malaquias termina recordando a importância de seguir a Lei dada por Deus a Moisés, bem como prometendo que Deus enviaria o profeta Elias, arrebatado aos céus (cf. 2Rs 2,11-13), antes que chegasse o “Dia do Senhor”, um dia terrível. Elias faria voltar o coração dos pais para os filhos e dos filhos para os pais, de modo que o Senhor não mais feriria a terra com o anátema, uma maldição divina.

Com essas palavras proféticas de Malaquias, a voz de Deus silenciou por cerca de 400 anos. Era o tempo do Império Persa, o atual Irã, assim chamado somente a partir de 1935, quando o país se modernizou. O império persa, com Ciro, o Grande, fundador do Império Aquemênida em 559 a.E.C., conquistou o Império Neobabilônico em outubro de 539 a.E.C.. O povo judeu recebeu então a permissão para voltar para a Judeia. Muitos chegaram a pensar que Ciro era o Messias enviado por Deus, esperado desde os tempos do rei Davi (1010 a 970 a.E.C.).

No início do Segundo Testamento, quando João Batista, figura de destaque nos quatro evangelhos, foi para o deserto — lugar que recordava a presença do povo de Deus no passado, no tempo da escravidão no Egito — ele passou a anunciar, do outro lado do rio Jordão (recordando o Mar Vermelho), que o Messias estava para iniciar o seu ministério de salvação messiânica. João afirmava que não era digno sequer de desamarrar as correias das sandálias daquele que viria depois dele (cf. Mc 1,1-7; Mt 3,1-8; Lc 3,1-18; Jo 1,19-33). João Batista não se intitulava profeta, mas aquele que veio preparar os caminhos do Messias, o Salvador esperado em silêncio por tantos séculos.

João Batista realizava o batismo de corpos no rio Jordão. Seu batismo era o de conversão, enquanto o de Jesus seria no Espírito de Deus, o que significava dizer que a misericórdia de Deus agiria nas ações salvíficas do Messias. Foi por esse motivo que a atuação de Jesus esteve voltada para o cuidado de corpos sofridos e excluídos do Templo pela Lei judaica, que muitas vezes os classificava como malditos de Deus. A doença, por exemplo, era vista como sinal de maldição. A espiritualidade de Jesus era a do encontro de corpos, para neles exercer a misericórdia.

É nesse sentido que Jesus afirma não ter vindo abolir a Lei, mas dar-lhe cumprimento, oferecendo misericórdia e não sacrifícios, como já anunciavam os profetas (cf. Os 6,6). Ele cumpre a palavra dos profetas. Jesus levou ao extremo o ensinamento de que a Lei se realiza na misericórdia, no acolhimento do marginalizado e na inclusão daqueles que sofrem, sem a rigidez de uma Lei que ignora a dor do próximo.

No Evangelho de Mateus, esse modo de compreender o cumprimento da Lei e dos Profetas fica evidente. O evangelho foi escrito com o objetivo de fortalecer a fé das comunidades cristãs formadas por judeus cristãos, tanto na Palestina quanto fora dela, demonstrando que Jesus é a realização do Primeiro Testamento com suas leis. Algumas delas estavam marcadas por tradições ultrapassadas e distantes do projeto de Deus. Jesus atualiza algumas e contrapõe outras.

O Evangelho de Mateus é o que mais cita o livro do Deuteronômio. Para demonstrar como deve ser a vida de um judeu cristão em relação a Deus, à família e à sociedade, o evangelista recorre frequentemente às leis desse livro. São 25 citações tiradas de diversos capítulos: 4, 5, 6, 7, 8, 12, 13, 15, 17, 18, 19, 23, 24, 30, 32, 33 e 34.

No final da vida de Jesus, com a sua morte na cruz, todos os sacrifícios exigidos pela Lei encontram seu cumprimento. Por meio de Cristo, torna-se possível o acesso direto a Deus. Ao longo da história, porém, a Igreja Católica retomou alguns elementos do Primeiro Testamento para legitimar a ação sacerdotal na oferta de sacrifícios como expressão de devoção. A Eucaristia, celebrada nos primórdios do cristianismo como memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo, passou a ser compreendida também como um sacrifício oferecido a Deus.

Essa dimensão devocional incorporou diversas intenções e celebrações, como festas de santos, missas de sétimo dia, sufrágios pelas almas do purgatório, aniversários, formaturas e outras ocasiões. É uma prática que convida à reflexão.

Por fim, viver a Lei é fazer caminho, ter uma conduta pautada na justiça e na misericórdia divinas. Isso não pode ser abolido. Ouvir os profetas é cumprir aquilo que a Palavra de Deus pede de nós. E com Jesus haveremos sempre de afirmar: “Não vim abolir a Lei e os Profetas” (Mt 5,17). E ainda: “Antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra” (Mt 5,17b-18). Pratique essas palavras e serás grande no Reino dos Céus (Mt 5,19).
Amém!

 

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Franciscano e doutor em Teologia Bíblica