Povíncia Redentorista de Brasília

O verdadeiro sentido da morte para Jesus e São Francisco, e o luto para nós!

Sexta-feira da Paixão, dia para refletir o sentido da morte. Os evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas e João, todos eles têm como base de suas narrativas sobre Jesus histórico o relato da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. A comunidade Joanina, lá pelo ano 100 E.C., acrescentou elementos simbólicos à narrativa sobre a morte de Jesus.

A morte faz parte do trem de nossa história pessoal, mas como é difícil acolhê-la. São Francisco, no ponto alto de sua espiritualidade, a chama de irmã morte. O que levou São Francisco de Assis (1186–1226 E.C.) a pensar desse modo? Morrer é um esperançar para os que vão e os que ficam. Perguntas, no entanto, permanecem no nosso coração: Por que morrer? Para que morrer? Será que Deus nos abandona na hora da morte? Ele abandonou Jesus na agonia da Cruz? Que relação existe entre o pecado e a morte no judaísmo? Como ocorriam as mortes de condenados no tempo de Jesus?

São tantas as perguntas, muitas delas sem resposta, que vou começar pela última. Quatro eram os tipos de morte na Roma antiga contra assassinos, rebeldes contra o Império, estupradores e crimes contra pais e parentes (parricídio), a saber:
a) ataques, no Circo Máximo, de animais ferozes, que matavam e comiam os condenados;
b) ser queimado numa fogueira;
c) ser empalado, isto é, o condenado devia sentar-se em uma vara pontiaguda, a qual atravessava suas entranhas até rasgar o ventre;
d) crucifixão, precedida de flagelação até o local da morte.

O historiador romano Suetônio (69–144 E.C.) conta que o imperador Nero mandou matar os cristãos por serem membros de uma maléfica superstição. Já outro historiador, Tácito (56–117 E.C.), deixou escrito: “O suplício desses miseráveis foi ainda acompanhado de insultos, porque ou os cobriram com peles de animais ferozes para serem devorados pelos cães, ou foram crucificados, ou os queimavam de noite para servirem como archotes e tochas ao público. Nero ofereceu seus jardins para esse espetáculo.”

Jesus, por ser considerado um rebelde e agitador popular, foi condenado ao suplício da cruz. Ele terá carregado nas costas a haste horizontal da cruz, que pesava em torno de oito quilos, até o monte Gólgota. No instante derradeiro de sua morte, Jesus soltou um grande grito de dor: “Elahi, Elahi, lemá, sabachtháni?”, que é traduzido, normalmente, por “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34; Mt 27,46).

Jesus gritou em aramaico, língua que deu origem ao hebraico. “Lamá”, em hebraico, língua próxima ao aramaico, é “lemá”, mas também “lamá”. Jesus disse “lama”, seguido de “sabachtháni” — “me abandonaste” —, que é a junção da partícula interrogativa “máh” com o complemento “le”, e significa “para quê”, podendo também ser traduzido por “por quê”. Isso pode ocorrer tanto no aramaico quanto no hebraico. O uso do “para quê” expressa a motivação da morte de Jesus. Por isso há diferença entre eles: o “porquê” nos remete ao passado, e o “para quê”, ao futuro.

Deus não abandonou Jesus. No seu grito humano de dor, ele compreendeu o sentido de sua morte. Para a religião judaica, doenças e deficiências físicas eram consequências de pecado. Ele pôs um fim aos sacrifícios exigidos pelas lideranças no Templo de Jerusalém com o objetivo de reparar (perdoar) pecados. Jesus entendeu, naquele momento, que supera a tradição que relacionava pecado com sacrifício. Uma nova etapa da salvação começa com Jesus: um futuro, um “para quê” de um tempo novo.

Em relação à nossa vida, quando nos deparamos com a morte de alguém que amamos, a tendência é perguntar pelo “porquê” da morte. São perguntas sem respostas. Eu podia ter sido mais cuidadoso com ele ou ela? Eu podia ter perdoado e recebido o perdão? Eu podia, mas não posso mais! Quem muda a pergunta e diz “para quê” se lança para o futuro. Não mais justifica a morte, mas dá um novo sentido para ela. Era o seu momento.

Jesus, na hora da morte, com o seu grito, entendeu que a sua morte era redentora, salvaria muitos, levaria muitos para a casa do Pai, até ladrões convertidos. Por isso, Jesus morreu entregando o espírito e acreditando que tudo estava consumado. A Primeira Carta aos Coríntios (1Cor 15,55), refletindo sobre a morte de Jesus, afirma: “Morte, onde está a tua vitória? Morte, onde está o teu aguilhão?” Aguilhão, uma vara pontiaguda para guiar os bois, significa, nessa passagem, o pecado. Jesus vence a morte como consequência do pecado. Ele rompe com a compreensão anterior. Desse modo, a morte deixa de ser apenas negativa.

E foi assim que entendeu São Francisco de Assis (1181–1226 E.C.), na Idade Média, quando a chamou de irmã morte. Como criatura de Deus, para São Francisco, a morte faz parte de nosso viver.

No jogo da vida, as cartas mudam de posição. Os mortos, contemplando a Deus, nos veem de outra forma, em outro tempo, em outro modo de amar. Para eles, o nosso tempo deixa de existir. Já o tempo dos vivos se resume, muitas vezes, em viver a dor do luto. Passar pelo luto para romper o tempo da morte é fundamental. Fechar o luto com fé na ressurreição é abrir-se ao amor de quem partiu, de modo que esse amor permaneça unido a nós, como fios invisíveis que se entrelaçam na eternidade; como uma borboleta que sai do casulo para estar em todos os espaços, espalhando amor.

A morte faz parte da finitude de nossa vida. A vida é uma arte, um eterno movimento de nascer e morrer. Uns vão, outros vêm, e a vida continua o seu curso. A morte, no entanto, pode ser princípio de sabedoria para quem compreende o seu sentido. Entenda isso, como São Francisco, e a dor da morte natural será mais amena. Receba-a como irmã morte, quando a sua hora chegar.

No entanto, na marcha da vida, nunca diga sim à morte que vem das guerras e das injustiças sociais. E serás um bem-aventurado!

 

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Franciscano e doutor em Teologia Bíblica