Povíncia Redentorista de Brasília

Ramos de Paixão nos encontros e desencontros na vida de Jesus! Moradia para todos e penitência ecológica na nossa vida!

Com o Domingo de Ramos, a Igreja inicia a Semana Santa. Trata-se de simbólicos sete dias na vida de Jesus, que vão da glória à paixão. Na casa comum de nossas vidas, a ecologia, vivemos num processo de paixão, numa agonia sem fim que grita por socorro. A Campanha da Fraternidade deste ano nos chama para uma atitude de conversão em relação à moradia, nossa casa onde habitamos. São milhões de brasileiros que não têm onde morar ou vivem em moradias subumanas. Quase quatrocentos mil brasileiros vivem na rua.

Quais são os encontros de Jesus na sua trajetória de vida? Como está a nossa relação com a ecologia, a mãe natureza? Por que refletir sobre a moradia?

Lc 19, 28-40 relata a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém em um jumentinho para cumprir a profecia de Zacarias 9,9, onde se lê que o Messias chegaria em um jumentinho. Esse gesto recorda o rei Davi (1010 a.E.C. a 970 a.E.C.) quando conquistou a cidade de Sião (Jerusalém) dos jebuseus (2Sm 5,6-16). Por isso, Jesus foi saudado com o grito de: “Bendito o rei que vem, em nome do Senhor!”. Panos e ramos de palmeiras (Mt 21,8) foram jogados para Jesus passar. Jesus é recebido como rei e Messias que iria chegar. Quando cantamos, na missa, antes da consagração, “O Senhor é Santo”, fazemos memória desse momento.

A palmeira era o símbolo da Lei, a Torá. Jesus estava em conformidade com os ensinamentos dos mestres da Lei, pensava o povo. Tudo ia tão bem, mas não foi bem assim na vida de Jesus, considerando os fatos que antecederam esse momento.

Na trajetória de Jesus, há encontros e desencontros, glória e paixão. Uma mulher derrama perfume caro no seu corpo. Ele se encontra à mesa com um traidor que se passava por apóstolo, Judas Iscariotes. Na sua trajetória rumo à paixão, há um apóstolo, de nome Simão Pedro, que o trai antes do canto do galo, e um camponês, de nome Simão Cirineu, que o ajuda a carregar a pesada cruz. Com os seus apóstolos, Jesus celebra uma ceia festiva que se contrapõe à dor pressentida da morte, no Getsêmani. O cruel Pilatos o interroga e o envia para ser crucificado ao som da turba que pede a sua condenação. No calvário do Gólgota, Jesus encontra-se, na sua hora derradeira, com as mulheres de sua vida: sua mãe Maria, sua tia Maria, esposa de Cléofas, sua amada Maria Madalena e sua amiga Salomé. Por fim, com o corpo já desfalecido, Jesus de Nazaré encontra-se com o seu amigo José de Arimateia, que lhe oferece, com o seu dinheiro, um enterro digno de rei.

Na trajetória de nossa vida humana, animal e vegetal, estamos vivendo momentos de degradação, de paixão, de padecimento da Casa Comum, a ecologia. Estamos assistindo à degradação das florestas e dos rios. Os polos, outrora gelados, degelam e ameaçam invadir mares e cidades. A destruição da camada de ozônio, que tem a função de nos proteger dos raios ultravioletas vindos do sol, está sendo agravada pela poluição causada por nós.

Catástrofes recentes, como as na Zona da Mata Mineira e no Rio Grande do Sul, assustam e matam sem piedade. Assistimos a uma constante diminuição de áreas úmidas e férteis, com consequente desertificação. Alimentando toda essa trajetória humana, a economia insiste num crescimento permanente para o consumo: ter e ter para ter. Somos mais de oito bilhões de seres humanos ávidos por consumir.

Caso não mudemos os rumos de nossa trajetória, a paixão ecológica vai se intensificar ainda mais. A nossa “morte de cruz” chegará mais depressa que imaginamos. O futuro do ser humano poderá ser o da extinção, fruto de um “suicídio coletivo” que degrada as condições propícias para a vida em todas as suas formas. O planeta Terra, dom de Deus, tem mostrado sinais evidentes de esgotamento. Há um grito da terra por cuidados que poucos ouvem! O constante aquecimento global é assustador.

Nesse contexto, a esperança há de ressurgir! A nossa missão é cuidar da terra, da natureza, dos animais e de todo ser criado por Deus. O cuidado é o princípio fundamental para iniciarmos um processo de mudança, abandonando a ambição pelo lucro e o consumo sem limites. Cuidar é divino, é sagrado, é ordem do Criador. É preciso impor limites ao ser humano! Crime contra a natureza é crime contra nós mesmos. É necessária uma mudança de mentalidade e de práticas.

A Quaresma leva muitos cristãos a fazerem penitência. Que tal uma penitência ecológica constante? Ela está no uso consciente da água, fechando a torneira ao escovar os dentes, reutilizando-a sempre que possível. Está também na eficiência energética: optar por lâmpadas LED, desligar aparelhos da tomada quando não estiverem em uso e aproveitar ao máximo a luz natural. Cada pequena ação faz a diferença. A soma dos esforços individuais pode transformar o futuro do planeta! Sejamos penitentes ecológicos!

A moradia é um direito de todos e não uma mercadoria. Temos uma responsabilidade social com os que não têm um teto digno para morar. Jesus veio morar entre nós, como afirma o Evangelho de João (1,14). Isso requer de nós uma conversão social. Como bem salientou o Papa Francisco, precisamos de três “T” para viver: teto, terra e trabalho! Para que isso aconteça, são necessárias outras três coisas: políticas públicas, parcerias e solidariedade.

Que a esperança advinda dos ramos do Domingo de Ramos nos reoriente na reconstrução da vida integral, na ecologia e na moradia digna para todos! Amém! Amém! Amém!

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

Franciscano e doutor em Teologia Bíblica