Cuenca e Madri foram cenários de alguns dos episódios mais dolorosos da Guerra Civil Espanhola, marcada pela violência, pela perseguição e pela morte de inúmeros cidadãos espanhóis. Entre eles estavam nossos confrades redentoristas: homens como nós, com histórias, sonhos, projetos e uma vocação que, no cotidiano de suas vidas, os conduziu a uma entrega radical. Aquilo que haviam professado com os lábios e testemunhado por meio de seu ministério tornou-se, diante da perseguição, a expressão mais profunda de sua fidelidade ao Redentor.
Esses homens, que durante a vida foram sinais de fé e esperança para tantas pessoas, viram-se diante da possibilidade de oferecer o próprio testemunho até às últimas consequências. Aqueles que haviam anunciado a esperança cristã encontravam-se, agora, diante do mistério da morte, sustentados pela esperança que nunca os abandonou: Jesus Cristo, o Redentor, fundamento de nossa fé e razão da entrega de cada confrade. A morte, embora carregada de violência e sofrimento, não poderia ser a palavra definitiva para aqueles cuja vida estava enraizada na promessa da ressurreição.
Duas realidades distintas, Cuenca e Madri, um mesmo ideal: evangelizar a todos, servir e tornar presente a copiosa redenção de Cristo. A missão que haviam abraçado não se limitava à celebração dos sacramentos ou ao exercício das atividades próprias do ministério sacerdotal e religioso. Ela se manifestava também na proximidade com o povo, na vida comunitária, na oração e na perseverança cotidiana. Realizavam missões e pregavam retiros espirituais. Foram homens apostólicos até o último instante, chamados a testemunhar, em circunstâncias extremas, aquilo que haviam anunciado durante toda a vida. Diante da incerteza do amanhã, sua esperança permanecia voltada para o encontro definitivo com Aquele a quem tanto amaram e a cujo serviço consagraram a existência.
Santo Afonso Maria de Ligório, CSsR, alimentava um ardente desejo de partir para as missões do Oriente e, se necessário, derramar o próprio sangue pela fé. Entretanto, os caminhos da Providência conduziram-no à fundação da Congregação e, posteriormente, ao episcopado. O desejo missionário e a disponibilidade para o martírio, contudo, permaneceram profundamente ligados ao seu ideal de entrega a Cristo. Nos confrades martirizados na Espanha, esse mesmo espírito de disponibilidade encontrou uma expressão dramática: não porque tenham procurado a morte, mas porque, quando confrontados com a possibilidade de renegar a fé, permaneceram fiéis àquele que haviam escolhido seguir.
Não se tratava de desprezar a vida, mas de reconhecer que a fidelidade ao Redentor era o fundamento de sua existência. A coragem que manifestaram não nasceu de uma suposta ausência de medo, mas de uma fé capaz de sustentar a decisão mesmo diante da ameaça, da angústia e da morte. Foram homens decididos, não porque desconhecessem a fragilidade humana, mas porque encontraram em Cristo a força para atravessá-la.
O sangue desses religiosos tornou-se, assim, semente de esperança e testemunho de caridade. Como filhos fiéis do Redentor, fizeram de sua própria existência uma oferta, confirmando com a vida aquilo que a vocação redentorista lhes havia ensinado: a fidelidade a Cristo não se mede pela ausência de dificuldades, mas pela capacidade de permanecer com Ele mesmo quando tudo parece desmoronar. Neles, o ideal de Santo Afonso não aparece como uma busca romântica pelo sofrimento, mas como uma disponibilidade total para a missão, sustentada pelo amor a Jesus Cristo e pela confiança na redenção abundante que Ele oferece.
Em Madri, seis sacerdotes e seis irmãos; em Cuenca, cinco sacerdotes e um irmão. Ao todo, dezessete religiosos redentoristas, que tiveram em comum: a entrega total de si, o amor à Congregação e a fidelidade à fé cristã. Em meio à perseguição, procuraram preservar a vida, buscando abrigo em outras casas religiosas, seminários e até na residência do bispo. Essa atitude não diminui em nada a grandeza de seu testemunho. Afinal, o martírio cristão não consiste em procurar a morte, mas em não abandonar a fidelidade a Cristo quando a violência coloca a própria vida em risco.
O que esses mártires carregam em comum e o que podem nos ensinar hoje? Antes de tudo, ensinam-nos que a santidade é construída no cotidiano, muito antes de se manifestar nos momentos extraordinários. A fidelidade demonstrada no momento do martírio não surgiu de repente: foi amadurecida na oração, na missão e na entrega diária. A coragem do último instante estava enraizada nas pequenas fidelidades de todos os dias.
Seus testemunhos também nos recordam que a vocação não é uma garantia de vida tranquila, mas um chamado a amar sem reservas. Hoje, em nossa realidade de Brasil, talvez não sejamos confrontados com o mesmo tipo de perseguição, mas continuamos diante de outras formas de provação: o desânimo, a indiferença, o individualismo, a perda do sentido da missão e a tentação de adaptar o Evangelho às nossas conveniências. Ser fiel ao Redentor, em nosso tempo, significa permanecer junto aos pobres e abandonados, servir sem buscar reconhecimento, cultivar a fraternidade mesmo nas diferenças e anunciar a esperança cristã quando o mundo parece não encontrar razões para esperar.
Os mártires espanhóis não nos inspiram a desejar o sofrimento, mas a compreender a profundidade de uma vida inteiramente entregue a Deus. Eles nos mostram que o hábito religioso, por si só, não constitui o testemunho: é necessário que a vida corresponda àquilo que ele representa. Não basta vestir-se como redentorista; é preciso assumir, com coerência, o espírito missionário de Santo Afonso, tornando-se presença de Cristo entre aqueles que mais necessitam de redenção, dignidade e esperança.
Por fim, a memória desses confrades nos convida a olhar para a nossa própria vocação e perguntar: se a fidelidade ao Redentor exige de nós renúncia, perseverança e coragem, estamos dispostos a permanecer com Ele? Estamos construindo, nas escolhas de cada dia, uma vida capaz de testemunhar o Evangelho também nas horas difíceis?
Os mártires de Madri e Cuenca responderam a essas perguntas com a própria existência. Suas vidas, interrompidas pela violência, continuam a falar à Igreja e à Congregação. Não são apenas recordações de um passado doloroso, mas sinais vivos de que a missão redentorista ultrapassa os limites de uma época e as fronteiras de um país. O sangue que derramaram não apaga a esperança que anunciaram; antes, recorda-nos que o amor de Cristo é mais forte do que a violência e que a fidelidade, quando enraizada no Redentor, pode tornar-se um testemunho que atravessa gerações.
Fr. Marcus Vinícius de Souza, CSsR
Comunidade Redentorista Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Juniorato I) – Recife – PE



