Um telefone antigo, uma mesa e um convite capaz de despertar sentimentos profundos: “Ligue para o céu e fale com alguém especial”. Foi assim que o padre Cleiton Silveira, CSsR, missionário na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Feijó, no interior do Acre, encontrou uma maneira sensível de acolher a saudade de pessoas que visitaram o Cemitério Santa Cecília no Dia de Finados, celebrado em 2 de novembro.
A iniciativa consistiu em disponibilizar um telefone na entrada do cemitério para que os visitantes pudessem, simbolicamente, deixar mensagens e homenagens a familiares e amigos falecidos. A ação foi registrada em vídeo pela Pastoral da Comunicação (Pascom) da paróquia e rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais, alcançando também perfis de projeção nacional.
Por trás da proposta, existe uma experiência pessoal de perda. O próprio padre Cleiton encontrou na iniciativa uma maneira de expressar a saudade de pessoas importantes em sua história. “Perdi minha mãe, pela enfermidade do câncer há dois anos e minha avó matéria há sete meses. São eternos em minha vida os frutos gerados por elas: fé, vida de oração, caminhada em comunidade”, relata.

Foi a partir dessa experiência que surgiu a ideia de proporcionar aos fiéis um espaço para manifestar sentimentos que, muitas vezes, permanecem guardados. Inspirado também pelas possibilidades de aproximação oferecidas pelos meios de comunicação, o missionário pensou em uma forma simbólica de homenagear aqueles que já partiram.
“Os meios de comunicação nos aproximam: vídeos, áudios, fotos, então pensei: na celebração de finados, imagina se todos pudéssemos, mesmo que de maneira simbólica, expressar um pouco dessa saudade e homenagear quem amamos?”, explica.
A inspiração também veio do poema “A morte não é nada”, atribuído a Santo Agostinho. O texto apresenta a morte não como o rompimento definitivo dos vínculos, mas como uma passagem que não apaga o amor e os sentimentos construídos ao longo da vida. Para o padre Cleiton, essa perspectiva ajudou a dar sentido à iniciativa.
Um espaço para expressar a saudade
Durante a ação, os visitantes tiveram liberdade para decidir se desejavam participar. Não houve abordagens ou convites individuais para que as pessoas gravassem mensagens. A proposta era oferecer um espaço de acolhimento, respeitando a maneira como cada pessoa vivencia o luto.
“As pessoas não foram intimadas e nem sequer abordadas para as falas, deixamos muito livre a escolha de usar o ‘telefone do céu’. Sabemos que nem todos elaboram a dor do luto da mesma maneira, então espontaneamente as pessoas se aproximavam e manifestavam o interesse de ‘discarem’ e se sentirem à vontade para dizer algumas palavras para alguém especial que já partiu”, conta.

A repercussão surpreendeu o missionário. “Não imaginava tamanha repercussão, nosso objetivo com a PASCOM era despertar a humanidade, num contexto tão ‘artificial’ da internet. Somos pessoas, nossa paróquia é feita de ‘gente’, que chora, sente saudade, se emociona e tem sobretudo, fé e esperança. Fiquei impressionado com o contato de perfis de alcance nacional”, afirma.
A experiência também abriu espaço para uma reflexão sobre o papel da Igreja diante da dor da perda. Para o padre Cleiton, falar sobre o luto e expressar os sentimentos são atitudes importantes no processo de elaboração da saudade. Ele recorda que o próprio Jesus chorou diante da morte de um amigo.
“Jesus também chorou, e uma das situações que o levou às lágrimas foi a morte de um amigo, falar da dor, verbalizar o sentimento, também são caminhos para superar o luto. Com a fé, a esperança da ressurreição em Cristo, o luto passa de um quarto escuro e cheio de dor, para um lugar feliz de memórias e emoção. O que a memória ama, permanece eternizado.”
O sacerdote também faz questão de esclarecer o sentido religioso da proposta. “Os fiéis não foram chamados a um diálogo com os espíritos, o convite era uma reflexão simples: ‘e se eu ainda pudesse fazer uma ligação?’. Conheço a história de cada fiel que se propôs a ser gravado, sei que já o faziam durante a vida dos seus dentes queridos, não são lágrimas de arrependimento, mas de carinho e de amor”, ressalta.
A missão redentorista na Amazônia
Natural de Assis Chateaubriand, no Paraná, da comunidade de Terra Nova, padre Cleiton está há quatro anos à frente da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Feijó. Sua atuação missionária acontece em uma realidade marcada pela diversidade cultural, pelas grandes distâncias e pelas particularidades geográficas da região amazônica.
O trabalho pastoral exige disposição para enfrentar desafios relacionados à infraestrutura e ao acesso às comunidades ribeirinhas e aos chamados ramais, além das mudanças climáticas que interferem diretamente na rotina da população.
Apesar das dificuldades, o missionário destaca a acolhida e a generosidade do povo como marcas que tornam a experiência especialmente significativa. “A missão no Acre, e na região Amazônica em geral é um desafio, infraestrutura, acesso às comunidades ribeirinhas ou ramais, mudanças climáticas, no entanto, um desafio que encanta na acolhida simples e generosa de um povo guerreiro, na diversidade dos povos indígenas, na alegria dos fiéis em pertencerem às comunidades. Amo ser padre redentorista na Amazônia”, partilha.

Entre as particularidades da região está o chamado inverno acreano, que não se caracteriza pelas baixas temperaturas, mas pela elevação do nível das águas dos rios e igarapés, que transbordam quase todos os anos. Essa realidade interfere na mobilidade e no acesso a diferentes localidades, exigindo adaptação constante dos missionários.
Para o padre Cleiton, a experiência na Amazônia também aprofunda a compreensão da dimensão humana da vocação sacerdotal. A proximidade com comunidades que enfrentam dificuldades sociais e estruturais revela a importância de uma Igreja presente, acolhedora e solidária.
“O que mais me marca como missionário aqui, é saber o Padre antes do ministério é chamado a ser humano, e como Jesus, de tão humano, se aproximar do divino, estando próximo a um povo com tantas dificuldades, mas tão solidário uns com os outros”, destaca.

O sacerdote reconhece que a população enfrenta problemas como o abandono das estradas, as dificuldades de acesso à saúde e o descaso de instâncias públicas. Nesse contexto, compreende a missão da Igreja como presença que acolhe e oferece esperança.
“A Igreja, como ‘Hospital de Campanha’, acolhe e se torna sinal de esperança para um povo marcado por tantas feridas, incluindo o descaso de instâncias públicas, abandono das estradas, dificuldade na saúde”, conclui.
A iniciativa do “telefone para o céu” traduz, em uma ação simples, uma dimensão importante da missão evangelizadora: aproximar-se das pessoas, reconhecer suas dores e oferecer espaços de acolhimento. Na Amazônia, onde a presença missionária também significa enfrentar distâncias e dificuldades cotidianas, padre Cleiton encontra na humanidade, na fé e na esperança caminhos para viver o carisma redentorista.



